Rockbridge, grupo conservador do vice-presidente dos EUA, iniciou instalação no Brasil - Folha de S.Paulo
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25.set.2026 às 23h00 Edição Impressa Diminuir fonte Aumentar fonte Alexa Salomão São Paulo O Brasil entrou há alguns meses no foco da Rockbridge Network, um grupo privado americano de direita —meio político, meio empresarial— fundado pelo vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance . Seus emissários fizeram contato com empresários e políticos brasileiros para iniciar uma aproximação.
O grupo ganhou projeção no país nas últimas semanas após o presidenciável Renan Santos (Missão) sugerir que os americanos apoiam a campanha de Flávio Bolsonaro —o que os citados negam, mas a acusação levou a um pedido de investigação ao STF (Supremo Tribunal Federal).
A Rockbridge reúne grandes investidores, empresários e executivos conservadores que criam a tecnologia de ponta no mundo. Segundo a Folha apurou, já tiveram contato com representantes do grupo o empresário Joesley Batista , da J&F, e o banqueiro André Esteves, do BTG . Procurados pela Folha , ambos não comentaram. Entre os políticos, os candidatos à Presidência Flávio Bolsonaro e Romeu Zema também conheceram integrantes. Nenhum deles quis comentar.
Na semana do Brasil em Nova York neste ano, o outro cofundador da Rockbridge, Chris Buskirk, falou a empresários brasileiros num encontro mediado por Talles Gomes, fundador da Easy Taxi e da G4 Educação e integrante da rede nos EUA.
Fora do país de origem, a Rockbridge tem representação oficial apenas na Coreia do Sul. Quem acompanhou o processo no Brasil diz que ele foi suspenso devido ao ambiente eleitoral, considerado tumultuado.
A Folha teve acesso ao material de apresentação do grupo e aos trâmites para a adesão no Brasil.
Um dos documentos que circulou no Brasil explicava como se tornar membro e oferecia duas categorias: Keystone, com contribuição anual de US$ 500 mil, e Visionary, de US$ 1 milhão. Os pagamentos poderiam ser feitos em dólar, criptomoedas, ações de empresas abertas ou fechadas e por meio de estruturas corporativas e trusts. O formulário informava que os pagamentos deveriam ser feitos para a Rockbridge Brazil LLC, criada pelo grupo nos EUA.
Ambas dariam acesso a encontros fechados, dois summits anuais, videoconferências. A Visionary teria um plus: assento no conselho estratégico da Rockbridge Brasil, com participação na definição de prioridades, além de acesso a encontros descritos como "ultraexclusivos", incluindo jantares privados com grandes doadores e políticos internacionais.
Outro documento explicava que a Rockbridge Brasil atuaria aqui de um jeito parecido com o adotado nos EUA: seria um "fundo de venture capital político, dedicado à construção de uma plataforma para investir na infraestrutura política e social brasileira".
Voltar Compartilhe Ícone Facebook Facebook Ícone Whatsapp Whatsapp Ícone X X Ícone de messenger Messenger Ícone Linkedin Linkedin Ícone de envelope E-mail Ícone de link Cadeado representando um link Copiar link Ícone fechar Carregando... O texto dizia que o Brasil já é o maior país con servador do mundo, mas que falta um movimento para organizar essa força político-social. A Rockbridge Brasil poderia atuar como esse instrumento, financiando áreas citadas como restritas aos conservadores, porque estariam sob controle da esquerda.
A estratégia descrita previa atuação em três frentes: mídia (com apoio e organização de veículos conservadores); formação de jovens (com financiamentos a movimentos em ambientes acadêmicos); e atividade legislativa (fornecendo dados e pesquisas a parlamentares de direita). A definição do trabalho ficaria a cargo de "microconselhos temáticos", formados por cidadãos e empresas com atuação reconhecida em cada área.
Um outro documento, intitulado "Conselho de Tecnologia — O Atalho para a Prosperidade e Soberania Nacional", apresentou as vantagens num eventual alinhamento do setor empresarial brasileiro aos Estados Unidos na disputa tecnológica com a China. Era datado de abril e tinha como destinatário o então pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro.
Voltar Compartilhe Ícone Facebook Facebook Ícone Whatsapp Whatsapp Ícone X X Ícone de messenger Messenger Ícone Linkedin Linkedin Ícone de envelope E-mail Ícone de link Cadeado representando um link Copiar link Ícone fechar Carregando... O texto afirmava que o conselho tinha potencial para ser "um instrumento não governamental e não público" destinado a reunir grandes nomes da tecnologia e do capital "a serviço do Brasil", apoiando o desenvolvimento desse setor no país.
Previa que o impacto econômico poderia ser superior a US$ 100 bilhões em dez anos, entre investimentos, ganhos de produtividade e outros benefícios, como a geração de mais de 500 mil empregos e o desenvolvimento de 12 setores estratégicos ligados a tecnologia, energia e mineração.
A sugestão era que o conselho contasse com 23 integrantes —19 seriam estrangeiros, entre executivos, fundadores e investidores ligados à tecnologia. O documento afirmava que garantir a presença deles daria "credibilidade instantânea" ao organismo.
Nesse conselho haveria quatro brasileiros: Talles Gomes, da G4 Educação; Mario Araripe, fundador da Casa dos Ventos; David Peixoto, fundador da Pax AI; e Pedro Sang, apresentado no documento como CEO da Rockbridge Brasil.
Procurado pela reportagem para comentar a citação, Araripe não se manifestou.
A assessoria de imprensa da Pax afirmou que "Peixoto não recebeu convite para integrar o conselho nem jamais integrou qualquer iniciativa ligada à Rockbridge Network Brasil e nunca autorizou que seu nome fosse associado à entidade".
Sang afirmou não ter se associado ou exercido papel formal na Rockbridge, embora tenha sido apresentado ao grupo em outubro do ano passado por André Marinho, seu amigo de infância e candidato ao Governo do Rio de Janeiro pelo Novo.
"Interessei-me pela proposta de reunir investidores e empresários de tecnologia em uma rede que estimula negócios entre seus membros e, como entusiasta da inteligência artificial e da tecnologia como um todo, vi ali a oportunidade de atrair para o Brasil parte dos US$ 7 trilhões previstos em investimentos globais no setor, com potencial para gerar emprego e renda no país. A iniciativa, no entanto, está suspensa desde maio", explicou.
Em nota enviada pela assessoria de imprensa, Gomes reforçou que o projeto não evoluiu. "O conselho de tecnologia foi apenas uma proposta que ficou no papel: nunca foi constituído, nem se reuniu."
A assessoria de imprensa da Rockbridge nos EUA disse, em nota, que mediante interesse de brasileiros, foi criada a Rockbridge Brasil, mas o projeto foi depois rejeitado. "A Rockbridge criou a empresa [entidade jurídica] exclusivamente prevendo a possibilidade de levar adiante o negócio proposto. A iniciativa não prosseguiu, e a empresa nunca recebeu recursos, entrou em operação ou foi utilizada para qualquer atividade empresarial."
Segundo a assessoria, nunca foi cogitada a participação em política. "A proposta era a criação de um fórum empresarial, como também demonstra a apresentação elaborada por Marinho de forma independente e sem o conhecimento ou a autorização da Rockbridge."
Diz ainda que "brasileiros fizeram declarações falsas sobre sua relação com a Rockbridge e produziram documentos que apresentavam ou faziam referência à Rockbridge sem o conhecimento ou consentimento da organização".
André Marinho disse à Folha que o projeto de fato não evoluiu, mas nega que tenha produzido os documentos com as metas de atuação e termos de adesão.
"Reitero que este material jamais foi enviado nem apresentado por mim à campanha do Flávio Bolsonaro, a autoridades ou organizações americanas nem foi objeto de qualquer reunião ou tratativa", afirmou.
O candidato afirma que não faz parte da Rockbridge nem pretende se associar.
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